Numa
primeira aproximação semântica, diríamos que humanização significa o ato ou
efeito de humanizar-se, tornar-se humano, próprio da condição humana com seus
matizes denotativos: benévolo, afável, tratável, polido, civilizado. Esta
é uma definição superficial, aproximativa, calcada sobre um juízo de valor
extremamente abstrato, recheado de uma obviedade gramatical que consiste em
aparentemente demonstrar um mesmo predicativo com palavras diferentes e que
leva-nos à seguinte pergunta: o que é o humano?
Num sentido mais científico, poderíamos dizer que o humano
é o construto da combinação de três elementos: corporeidade, tradução imagética
do corpo e linguagem que se inscreve como memória tatuada na pele. O que de
fato “diferencia o ser humano da natureza e dos animais é que seu corpo
biológico é capturado desde o início numa rede de imagens e palavras,
apresentadas primeiro pela mãe, depois pelos familiares e em seguida pelo
social. É esse banho de imagem e de linguagem que vai moldando o
desenvolvimento do corpo biológico, transformando-o num ser humano, com um
estilo de funcionamento e modo de ser singulares” (BETTS: 2006).
Assim, pelo fato de dispormos de um equipamento tradutor
de alta complexidade, torna-se possível para nós humanos a construção de redes
de significados e que dependendo de seu grau de compartilhamento com outros
seres humanos somos capazes de combinar esses elementos numa certa identidade
cultural, além de transformar imagens, palavras e sons em obras diversificadas de
arte. De forma extremamente habilidosa podemos também intervir e modificar a
natureza, a vida e as relações humanas e sociais.
Esta capacidade de agir no mundo e em si mesmo com elevado
grau de desconstrução remete a uma reflexão de base filosófica que Hans Gadamer
acentua, quando diz: “aquele que atua lida, antes, com coisas que nem sempre
são como são, pois que podem ser também diferentes (...) Seu saber deve
orientar seu fazer”. Neste aspecto, esse autor resgata a ética de Aristóteles
quando de maneira exemplar discute o direcionamento do saber sobre o fazer em sua Tekne (técnica),
levantando uma questão importante sobre a relação entre meios e fins, o que
constitui a diferença entre o saber ético e o saber técnico. Se, por um lado, a
técnica é capaz de submeter a natureza e as relações humanas a uma condição de
coisificação, a ética sob a égide da phronesis
(prudência) reflete sobre este agir individual ou grupal e modifica o
impacto da técnica, orientando a escolha de meios idôneos para a sua aplicação
na imediatez da situação dada visando um determinado fim.
Então, o que seria humanizar? Neste sentido, humanizar é
garantir a circularidade da palavra e a sua dignidade ética. Ou seja,
humanizado seria aquele que se expressa como sujeito e que tem sua fala
reconhecida pelo outro, ouvida pelo outro, garantida pelo outro numa
intersubjetividade comunicacional de significações recíprocas dirigida por uma
intencionalidade propositadoramente humanizadora.
Aqui subsiste a diferença entre aquele que se diz homem e
um outro que se perfectibiliza de humano. Podemos com claro reconhecimento
impor no nível da produção (poiesis) um determinado rigor de eficácia técnica
na modificação das coisas, do mundo e da vida. Mas, certamente, não
conseguiríamos eliminar a indeterminação dos resultados malévolos desta ação na
vida social e humana se agíssemos indiferentes ao nivelamento do fundamento
ético. Parece que uma das condições extremamente exigível ao processo de
humanização é a admissão da ética como baliza para guiar o agir do saber técnico
num mundo inteiramente fugaz e contingente, mesmo que vez por outra a ética
seja traída pela técnica.
Talvez, fosse melhor pensar como os orientais que desconhecem
a relação lógica entre teoria e prática. Para eles, tudo é um processo, um
perpétuo movimento no qual se debate a ação. O real se apresenta sempre como um
devir; pois, como processo, decorrente da interação dos fatores em jogo, ao
mesmo tempo opostos e complementares, o yin e o yang, deixa-se levar pela
propensão apoiada no potencial da situação. Neste caso, a ordem não resultaria
de um modelo ideal, preconcebido e imaginado por uma razão transcendente. Mas,
necessariamente pelo curso do real, onde não existe a questão do meio-fim,
senão a exigência de uma atitude exploratória, pois não basta que a ação seja
bem intencionada para ser valorada como boa, é preciso que também seja bem
sucedida.
É por considerar a indeterminação das coisas que este
agir não pode existir a não ser diante da possibilidade de todo o perigo e de
toda a aventura. Esta postura de imanência diante do mundo, da vida e do
tornar-se humano exige da corporeidade, da tradução imagética do corpo e da
linguagem uma práxis que nivela os homens como seres autônomos e os considera
como agente essencial da sua própria autonomia, isto porque se apóia em um
saber efetivo, que é limitado e provisório como tudo o que é efetivo.
Esta práxis não é da ordem de um saber absoluto, mas de
uma atividade sempre presente, contínua, extremamente produzida e producente,
que só pode existir numa relativa lucidez, a qual “relaciona-se com dois
aspectos: o primeiro é que o próprio objeto da práxis é o novo, que não se
deixa reduzir a um decalque materializado de uma ordem racional
pré-constituída; o segundo é que o próprio sujeito da práxis é transformado
constantemente a partir da experiência na qual está engajado e que ele faz, mas
pela qual ele é também feito” (Castoriadis).
Assim, o plano é da técnica, o projeto da ética e a
realização da estética. Talvez, por isso, possamos dizer: precisamos da técnica
para sobreviver, da ética para viver e da estética para vir a ser. Um projeto
necessariamente humano, mas essencialmente humanizador.
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